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Professor titular do Departamento de Psicologia da UFMG e coordenador do curso PCND.

Professor titular do Departamento de Psicologia da UFMG e coordenador do curso PCND.

O Professor titular do Departamento de Psicologia da UFMG e coordenador do curso, Vitor Geraldi Haase, conta como foi sua trajetória para realização deste grande projeto.

“Há pouco mais de trinta anos eu estava fazendo a residência médica em neuropediatria na Santa Casa de Porto Alegre. Uma tia minha se envolveu na criação de uma APAE na cidade de Antônio Prado, na Serra Gaúcha. Minha tia convidou-me para colaborar no projeto. E eu aceitei de bom grado. Viajei várias vezes para Antônio Prado nos fins de semana e fiz exame neurológico em todos os alunos matriculados na APAE.

Na época foi um desafio considerável. Um desafio enorme para minha tia e suas colegas do projeto, que estavam começando do zero. Mas, principalmente para mim. Eu também estava começando praticamente do zero. Tinha muito pouco conhecimento, pouca experiência. E não tinha à minha disposição exames sofisticados tais como neuroimagem ou avaliações genéticas clinicas e laboratoriais.

O desafio era então como ajudar as pessoas, as famílias, os alunos e os profissionais, apenas com os poucos recursos clínicos que eu havia desenvolvido até então: história clinica, exame neurológico e raciocínio diagnóstico.

Todos começamos praticamente do zero. Eu tentando descobrir como aplicar na prática os poucos conhecimentos adquiridos na faculdade. As APAES de Antônio Prado e de todas outras cidades brasileiras também: identificando alunos, recrutando profissionais e voluntários, criando equipes e estrutura física, arrumando financiamento, trabalhando com as famílias, formulando e implementos projetos pedagógicos etc. etc.

Quando o sociólogo francês Alexis de Tocqueville esteve viajando pelos Estados Unidos no inicio do Século XIX ele ficou impressionadíssimo com o associativismo, que foi identificado como uma das principais características da sociedade americana. Hoje em dia dizemos que associativismo é capital social.

Aqui no Brasil, as APAES constituem um dos mais belos exemplos de associativismo. Todas as APAES começaram do nada, a partir da garra de pais, educadores, profissionais de saúde e pessoas interessadas em melhorar a educação e assistência social e de saúde a pessoas com deficiências, principalmente intelectual e autismo, e suas famílias. Um dos principais indicadores de desenvolvimento humano é a qualidade da assistência que uma sociedade presta a pessoas que por uma razão ou outra têm dificuldades para se inserir no mercado de trabalho.

As APAES têm origem na comunidade, a partir da iniciativa de cidadãos, de baixo para cima e independentemente de ideologias políticas ou iniciativas estatais. O movimento foi crescendo e se organizando. Hoje existe uma rede organizada que propicia toda uma infraestrutura e tende a se expandir.

Fico muito feliz em poder colaborar com a APAE de Belo Horizonte e com a Federação das APAES de Minas Gerais no Programa de Capacitação em Neuropsicologia do Desenvolvimento (PCND). Uma das coisas que eu percebi desde o início, durante as minhas visitas à APAE de Antônio Prado, é a importância e o potencial da neuropsicologia para a educação de pessoas com deficiência intelectual e autismo.

A variabilidade é a característica definitória dos fenômenos biológicos. As apresentações fenotípicas de deficiência intelectual e autismo são extremamente variáveis e precisam ser consideradas no processo educacional. As pessoas apresentam variabilidade interindividual em uma série de características com potencial para afetar a aprendizagem e o funcionamento adaptativo, tais como personalidade, habilidades perceptuais e motoras, habilidades linguísticas, habilidades viso espaciais, habilidades numéricas, inteligência etc. etc.

A avaliação neuropsicológica contribui para caracterizar o fenótipo cognitivo e comportamental de diversos síndromes e transtornos que se associam com deficiência intelectual e autismo. A caracterização do perfil de pontos fracos e pontos fortes é essencial para a individualização do currículo. Um currículo muito difícil, que negligencia as dificuldades do aluno, é fonte de estresse e desmotivação. Por outro lado, um currículo muito fácil, aquém das capacidades do aluno, não promove o desenvolvimento e também pode ser causa de desmotivação e desadaptação.

Essa experiência modesta na APAE de Antônio Prado certamente foi um dos muitos fatores que despertou em mim o interesse pela neuropsicologia. Na época não havia neuropsicologia no Brasil. A neuropsicologia também começou do zero. Mas foi crescendo.

Atualmente dispomos no Brasil de uma comunidade considerável de pesquisadores e clínicos na área de neuropsicologia. Fico feliz e orgulhoso em pensar que, talvez, os meus mais de trinta anos de trabalho possam ter contribuído para consolidar essa área no Brasil.

A viabilidade do PCND depende da existência de profissionais, docentes e pesquisadores na área de neuropsicologia do desenvolvimento, com perícia na avaliação cognitiva e comportamental, diagnóstico do impacto biopsicossocial das condições de saúde e diagnóstico e intervenções comportamentais com famílias.

Mas a viabilidade do PCND depende crucialmente da existência de uma rede de APAEs, de federações estaduais e nacional, que asseguram a infraestrutura necessária, bem como de dispositivos legais no Estado que permitem a captação de recursos financeiros junto à iniciativa privada através da renúncia fiscal.

É a partir da integração desses diversos fatores que o PCND está se tornando realidade. À medida que as APAEs e a neuropsicologia cresceram, os desafios também foram sendo elevados. O sarrafo foi subindo. O desafio que nos colocamos é capacitar 350 educadores das APAEs de Minas Gerais na área de neuropsicologia do desenvolvimento.

Um número tão grande alunos só pode ser atendido através da educação à distância. É aí que entra o Centro de Apoio à Educação à Distância (CAED) da UFMG. A expertise e a estrutura montadas pelo CAED viabilizam a operacionalização do projeto a um custo-benefício eficiente e realista.

É uma felicidade e uma honra poder participar de um projeto com a envergadura clinica, educacional e social do PCND da APAE de BH e da Federação das APAEs de Minas Gerais. A capacitação dos educadores das APAEs na área de neuropsicologia do desenvolvimento certamente contribuirá para uma individualização dos projetos educacionais dos alunos atendidos.

Discute-se muito no Brasil atual os modelos de educação para pessoas com deficiência intelectual e autismo. Diversos grupos de pressão e até mesmo o Governo Federal tentam excluir as escolas especiais como uma opção educacional para essa clientela. A escola especial virou anátema e ocorre uma forte pressão governamental em favor de um modelo tipo tamanho único, de “inclusão” em escolas regulares.

“Inclusão” em escolas regulares que ocorre sem um planejamento adequado, sem a formação de recursos humanos, sem a disponibilização de recursos materais. E que, justamente por causa dessa desorganização acaba sendo mais excludente do que inclusiva. É interessante observar o contraste entre as APAES, que nasceram de baixo para cima e estão se desenvolvendo e aperfeiçoando há sessenta anos, com as “políticas públicas” gestadas nos gabinetes de burocratas ideologicamente orientados e implementadas de cima para baixo sem levar em consideração o mundo real e as necessidades objetivas e subjetivas das pessoas envolvidas.

A dicotomia entre “escola especial” e “escola regular” é falsa. Não existe antinomia. Ambas abordagens são complementares, se o objetivo é uma inclusão real. A neuropsicologia pode ajudar a caracterizar o perfil do aluno e da família. Fornecendo assim informações sobre as diferenças individuais, as quais precisam ser integradas ao planejamento pedagógico individualizado.

Um determinado tipo de currículo é melhor trabalhado em um certo tipo de escola, outro currículo em outra escola. O tipo de posicionamento escolar depende também das características do aluno, da fase do desenvolvimento em que se encontra, das características e recursos da família e da disponibilidade de recursos na comunidade. As APAEs estão desenvolvendo e aperfeiçoando essa infraestrutura há mais de sessenta anos. Tenho certeza de que a neuropsicologia tem muito contribuir com esse case de sucesso.”